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terça-feira, 6 de abril de 2010

DESCARTÁVEL

Corremos todos os dias de casa para o trabalho e vice versa. Corremos para fazer o jantar, para ir buscar ou levar os filhos à escola,para estender a roupa, pôr outra a lavar, e, finalmente, corremos para o sofá, exaustas, meio mortas, onde caímos num estado semi adormecido, olhar fixo na TV, nao vendo sequer, as cenas que se sucedem, imagem a imagem no ecran.
Corremos no dia a dia, como se da corrida dependesse estarmos vivos,esquecendo que de tanto correr, chegamos mais depressa ao fim.
Corremos numa espécie de fuga para a frente, passando, no afã de tanta correria, por cima de sentimentos, de estados de espírito e até de pessoas.
Corremos para atingir um fim, um objectivo, indiferentes ao que se passa ao nosso lado.
Corremos todos os dias da nossa vida como se fosse importante chegar a algum lado, e quando lá chegamos, vemos que, tanta correria só nos trouxe a noção real e exacta de que somos um produto descartável, que atingiu o seu prazo de validade e se deita para o lixo.

domingo, 4 de abril de 2010

ESTE CANTINHO À BEIRA MAR PLANTADO.

Deambulo à beira do Tejo
num entardecer luminoso,
onde o Sol começa, lentamente,
a adormecer no leito do rio.
Sento-me à mesa numa esplanada,
que não é mais do que um amontoado de
pedras com muitos, muitos anos,
dispostas de forma irregular.
À minha volta, ouço tagarelar.
Reparo que, na mesa à minha frente,
fala-se francês, um pouco mais ao lado, Inglês.
À nossa volta, o rio, maré cheia.
Em frente, Lisboa, majestosa, magnifica,
Banhada pelos reflexos do sol.
Atracados no Cais, dois navios de cruzeiros.
Inúmeros aviões cruzam o céu por cima das nossas cabeças,
já em rota descendente,
trem de aterragem pronto para descer em Lisboa.

Uns partem, outros chegam, outros ficam.
E, ali, no meio do Rio, rodeada de pessoas
Que falam outras línguas, sinto-me, também eu,
uma turista no meu próprio País.

Descubro, que afinal,
vivo mesmo num cantinho à beira mar plantado.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Posted by Picasa

Sitios Mágicos.

Existem locais que, pela sua beleza, nos deixam sem respiração, nos fazem sentir do tamanho de
uma formiga neste nosso Universo.Locais onde vamos e tornamos a ir e de cada vez é sempre
como se fosse a primeira.Onde a natureza se mostra como é: indomável.
Locais que na nossa mente, se tornam únicos, nossos, como se fossem o "nosso cantinho," que sentimos como se fizessem parte do nosso corpo.
Pedaços de céu, de mar, de terra, pássaros, cheiros, tudo, em certos sitios nos deixa em paz, connosco e com o Mundo e nos reconduz à nossa real dimensão.
Locais que são como que um Santuário.
E, como todos os Santuários, por vezes são profanados.
E o meu "sitio especial", foi profanado. Nunca mais vou conseguir sentir o que sentia.Nunca mais vou conseguir encontrar a paz interior ao olhar aquele sitio.
E isso dói. Muito.

sexta-feira, 19 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Quarta

Conheci uma mulher com 63 anos.Empresária.Durante 42 anos construiu um negócio de família, com o marido e os filhos.Toda a sua vida trabalhou ombro a ombro com o marido, e à noite, em casa, era ela quem fazia tudo o resto para que a casa da família fosse um lar.
Nos dias em que o estabelecimento esteva fechado, o marido e os filhos iam passear, descansar, e
ela tratava das roupas, da limpeza da casa, das compras, das ementas dos jantares diários, etc...etc...Um dia, descobriu que os filhos já não precisavam da mãe, e o marido já não precisava da mulher.
Ele passou a sair com outras mulheres, como nunca saiu com ela. Os filhos começaram a levar-lhe os netos para cuidar no dia de folga e nas noites.
Está á beira da reforma do trabalho, da reforma do marido, dos filhos. Está sózinha.
E quando já não tiver que ir para o estabelecimento todos os dias, vai ficar sentada, em casa, em frente ao televisor, meio a dormir, meio acordada, a ansiar por aquele momento em que os netos cheguem para se sentir de novo viva.
No fim de uma vida inteira dedicada aos outros, ao trabalho, onde não sobrou nem tempo nem espaço para ela, o que vai ser desta mulher?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Terceira

Conheci uma mulher de 18 anos que tinha um bebé de 3 meses.Era solteira, apaixonada pelo pai do filho.Ele, de modos bruscos, ríspido, reduzia-a permanentemente à condição de bicho, anulava-lhe a vontade, não a deixava abrir a boca. A mulher menina não voltara à escola porque ele não queria. Ela vivia com os pais é com o bebé. Um dia, o pai da menina quis estabelecer regras de vida para a mãe, para o bebé, para o pai.
Estabeleceu horário para as visitas paternais, pelo menos que estas ocorressem quando o bebé estava acordado.
Tentou que o pai cumprisse com a obrigação de pagar pensão de alimentos.
Tudo em vão.
O pai do bebé queria porque queria, entrar em casa da namorada e do filho à hora que quisesse, quanto aos alimentos, os avós que pagassem.
Uma noite, perto da meia noite, a campainha tocou em casa da menina mulher.
A porta da rua foi aberta, e ele entrou pelo prédio, galgou os degraus dois a dois, brutalmente, deu um murro na porta do apartamento, e quando a abriram, entrou por ali dentro, em fúria, e empunhando uma pistola, disparou em todas as direcções. A primeira bala atingiu a avó da bebé, as outras perderem-se nas paredes e na porta do quarto, onde a menina mulher se encontrava, enrolando com o seu corpo franzino o seu filho, protegendo-o da fúria do pai.